Câncer de Vesícula Biliar
O câncer de vesícula biliar representa 3% de todas as neoplasias malignas do trato digestivo. Ele pode ser diagnosticado durante os exames que investigam algum sintoma do paciente ou durante a análise no laboratório de uma vesícula que foi retirada por outras causas que não se sabia ter o câncer. O tratamento depende do momento em que foi descoberto.
Diagnóstico
A neoplasia de vesícula biliar é frequentemente diagnosticada em estádios avançados devido à natureza agressiva do tumor, que metastatiza rapidamente. Outro fator que contribui para o diagnóstico tardio é a apresentação clínica que simula uma cólica biliar ou uma colecistite crônica (inflamação crônica). No entanto, a forma mais comum de diagnóstico é o achado incidental depois de uma colecistectomia por presumida doença benigna da vesícula biliar. Outras formas de diagnóstico são definidas por meio de massas suspeitas detectadas por exames de imagem ou obstrução de via biliar com icterícia e dor no hipocôndrio direito, estando estes últimos associados com pior prognóstico e menor taxa de ressecção cirúrgica.
Câncer de vesícula biliar incidental
Ocorrem entre 0,2% e 3% dos pacientes submetidos à colecistectomia. Na avaliação do paciente com diagnóstico de neoplasia de vesícula em exame anatomopatológico, a decisão de se acrescentar mais uma cirurgia para ampliação das margens depende da profundidade do tumor. Para tumores mais superficiais, chamados pela classificação TNM de Tis e T1a, nenhuma ressecção adicional é necessária. Para tumores T1b e em estágio superior, a ressecção hepática adicional é indicada, pois focos de tumor podem ser encontrados em até 2 cm de distância da margem do tumor primário.
Tomografia (TC) de tórax e de abdômen ou ressonância magnética abdominal (RNM) devem ser realizadas para excluir doença disseminada. A recuperação deve ser realizada o mais cedo possível, porém, pode levar de 2 a 4 semanas após a colecistectomia inicial, pois demanda-se um tempo para que a análise da vesícula final esteja disponível, todos os exames de estadiamento sejam realizados, e que o paciente esteja apto para recuperação.
Câncer de vesícula biliar previamente diagnosticado
O planejamento do tratamento cirúrgico no câncer de vesícula baseia-se no estadiamento. Os exames necessários são tomografia computadorizada (TC) de tórax, abdome e pelve; ressonância magnética de abdome superior com colangioressonância.
A cirurgia deve ser planejada caso a caso, pesando as condições funcionais, doenças associadas, extensão da doença e riscos para o paciente, permitindo um tratamento personalizado.
Nos tumores da vesícula biliar, a cirurgia mais comum é a retirada da vesícula junto com a retirada de parte do fígado, onde a vesícula está aderida, e a linfadenectomia da região dos vasos hepáticos. Em relação à extensão da hepatectomia, esta pode variar desde 2 cm de profundidade no leito da vesícula nos segmentos IVb e V, e de forma mais regrada, a ressecção anatômica dos segmentos do fígado IVb e V. Em relação a via biliar, faz-se necessário a obtenção de margens livres, seja a do cístico para casos iniciais, seja a da via biliar principal em casos mais avançados, levando a necessidade de anastomoses bilio-digestivas.
Quimioterapia pós-operatória ou radioquimioterapia parecem estar associadas a um benefício na sobrevida em pacientes com tumores da árvore biliar com doença em gânglios ou margens microscopicamente positivas. A melhor estratégia ainda não está definida, mas inclui regimes com base em fluoropirimidinas, com base em gencitabina ou combinações com radioquimioterapia.
Câncer de vesícula irressecável
A quimioterapia é a terapia tradicional para câncer de vesícula irressecável (nível 1 de evidência para uso de gemcitabina / cisplatina nas diretrizes). O estudo inglês ABC-02 sustenta o uso da combinação gemcitabina + cisplatina em casos de tumores avançados do trato biliar ou metastático. Não há terapia sistêmica de segunda linha estabelecida, embora terapias baseadas em fluoropirimidina (em monoterapia ou em combinação com outros citotóxicos) sejam às vezes utilizadas. A radioquimioterapia tem sido considerada uma opção possível de acordo com estudos não randomizados com taxas de sobrevida medianas entre 9 e 14 meses.
Terapia Paliativa
Semelhante a outros cânceres biliares, a base do tratamento paliativo no câncer do trato biliar é a manutenção de drenagem biliar adequada, nutrição e alívio de sintomas compressivos locais. A drenagem biliar pode ser obtida por meio da colocação de cateter percutâneo ou stents biliares endoscópicos e é idealmente realizado antes do início da quimioterapia. Tumores biliares podem causar compressão duodenal ou gástrica, necessitando de acesso para alimentação ou desvio gastrojejunal para manter uma nutrição adequada